Corema Caminha

“O LOBO NO ALTO MINHO”

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“O LOBO NO ALTO MINHO”

Após algumas décadas de ausência da Serra d’ Arga, os lobos voltaram a um território que já tinha sido ocupado pelos seus antepassados. E com o seu regresso, reeditam-se os conflitos que sempre contaminaram a relação das populações com esta espécie, protegida por lei desde 1988. A pouca disponibilidade de alimento selvagem – escassez das suas presas naturais – explicará os ataques recentes a cabras e ovelhas ocorridos nas três freguesias das Argas. O desaparecimento do lobo durante vários anos tornou desnecessárias as medidas e dispensáveis os cuidados que os proprietários de gado aprenderam a ter no tempo em que eram forçados a conviver com esta espécie. Compreende-se, assim, um certo relaxamento das medidas de protecção dos rebanhos da acção predadora do lobo. Enquanto membros das associações ligadas à conservação das espécies da vida selvagem e do lobo em particular, preocupam-nos a sua sobrevivência e a manutenção do seu habitat, mas também, e faço questão em sublinhar, preocupam-nos os interesses das populações, dos proprietários e da pecuária. Por isso, estamos hoje aqui para, em conjunto com os responsáveis autárquicos, a população das Argas e os próprios Ministérios do Ambiente e da Agricultura, procurar medidas e encontrar soluções que conciliem a defesa dos vários interesses em presença: do lobo, dos habitantes da serra, dos proprietários e dos pastores. As nossas expectativas têm a ver com a possibilidade de se gerar um diálogo construtivo entre todos, uma acção concertada que salvaguarde os interesses das actividades humanas e do lobo, que fazem parte de um só mundo rural. A COREMA, em Junho do ano passado, subscreveu um comunicado, assinado por várias organizações de Portugal e de Espanha, representativas de vários sectores da sociedade, incluindo os caçadores, exigindo a elaboração de um Plano de Ação em ordem a tornar sustentável a convivência com o Lobo-ibérico. Entre diversas medidas, preconizamos:

A gestão adequada dos prejuízos do lobo nos efectivos pecuários;

O apoio aos produtores pecuários para a correcta proteção dos seus animais face à predação do lobo;

O correto ordenamento das actividades e das infra-estruturas humanas na área de ocorrência desta espécie;

A valorização da presença do lobo no território como um indicador de qualidade ambiental.

Temos consciência de que a destruição do habitat, a fragmentação do território e a diminuição das presas naturais do lobo vão fazendo com que esta espécie se aproxime cada vez mais das zonas povoadas e, em vez de encontrarem corços, veados e javalis, encontram cabras, ovelhas e vacas. Daí a ocorrência de ataques a animais domésticos que são, muitas vezes, a única fonte de rendimento e de subsistência das populações serranas. Surgem, a partir daqui, os conflitos e as dificuldades em estabelecer-se um clima de coexistência pacífica entre as populações lupinas e os habitantes locais. Daí as perseguições de que os lobos são vítimas, conduzidas através das armas, das superstições e do desconhecimento que ainda grassa acerca do seu comportamento, hábitos e necessidades. Podemos afirmar que possuímos o privilégio de ter hoje aqui connosco alguns dos principais investigadores na área do estudo da ecologia do lobo, que nos poderão ajudar a compreender melhor o comportamento e as características desta espécie. A presença, igualmente, de responsáveis dos Ministérios da Agricultura e do Ambiente, do SEPNA, das Câmaras Municipais e das Juntas de Freguesia, ajudar-nos-ão a encontrar soluções que compatibilizem a proteção desta espécie da vida selvagem com a proteção dos rebanhos e dos interesses das populações.